Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo

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História da Criação da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo

No final do século XIX, a então Província de São Paulo já apresentava um apreciável desenvolvimento econômico. Os lucros da cultura do café permitiam aos paulistanos divertirem-se com o cinema e em viagens ao exterior. As elites vestiam-se ao rigor da moda francesa. Mas os paulistas enfrentavam um grave problema: a falta de médicos. Apenas Rio de Janeiro e Bahia dispunham de Escolas de Medicina.

As tentativas ocorridas até então para se implantar um curso médico em São Paulo não haviam vingado. Em 1804, o então governador da capitania de São Paulo, Antônio José da Franca e Horta, comunicou ao Ministro e Secretário dos Negócios Ultramarinos, João Rodrigues de Sá e Melo Soto-Maior, Visconde Anadía, que "seis alunos que freqüentaram em 1803 a aula de cirurgia instituída por mim no Hospital Militar desta cidade, sendo lente o físico-mor Mariano José do Amaral, todos eles foram aprovados pelos examinadores..." A experiência não teve continuidade.

Letra morta foi o decreto-lei de 4 de novembro de 1823, que criava duas Universidades no Brasil, uma em Olinda e outra em São Paulo. Ambas deveriam contar com Faculdades de Medicina e Farmácia.

Na Província de São Paulo a idéia de uma Escola de Medicina já existia. Em discurso proferido na Assembléia Provincial de São Paulo em 27 de fevereiro de 1878, Cesário Motta Júnior defendia a criação de uma Escola de Medicina, que seria a decorrência de um precursor curso de Farmácia.

O Governo Imperial demonstrava descaso pela Província de São Paulo. O único investimento na área de saúde feito pela coroa em São Paulo era a Inspetoria Provincial de Higiene, instalada em 1886 e sustentada à custa de seu diretor, Marcos Arruda.

As primeiras tentativas de se viabilizar a criação de um curso médico na capital paulista ocorreram com a implantação da República, por iniciativa de Luiz Pereira Barreto, que pretendia criar uma Universidade.

Mas o primeiro instrumento legal estabelecendo uma Escola Médica em São Paulo foi a lei nº 19, de 24 de novembro de 1891. A lei foi sancionada pelo Presidente do Estado, Américo Brasiliense de Almeida Mello e referendada pelo Secretário do Interior, Augusto de Freitas Villalva. A lei, reputada importantíssima pelo chefe do governo paulista, não encontrou espaço político para ser regulamentada.

Américo Brasiliense permaneceu no cargo por apenas mais alguns dias. Demitiu-se no dia 15 de dezembro, em decorrência da queda de Deodoro da Fonseca, ocorrida a 25 de novembro de 1891.


Américo Brasiliense
de Almeida Mello

Apesar da instabilidade política, chegou-se a criar uma comissão encarrsegada de planejar a Academia. Segundo o historiador Ricardo Maranhão, a comissão se cindiu. Carlos Botelho, Luiz Pereira Barreto e Francisco Franco da Rocha fizeram um relatório, mas Antonio Francisco de Paula Souza, Inácio Marcondes Rezende e Souza Tibiriçá apresentaram um outro. O Congresso do Estado, no entanto, não os colocou em pauta.

Com a criação da Academia de Medicina, Cirurgia e Farmácia, Américo Brasiliense vinha consolidar o anseio da nata da medicina paulistana, que se reunia na Santa Casa de Misericórdia. Entre eles estava o recém-formado Arnaldo Vieira de Carvalho.

Segundo Antonio de Almeida Prado, em relatório relativo às atividades administrativas do ano anterior, o secretário de Estado Cesário Motta Júnior aludia, em 28 de março de 1894, à criação de uma Escola de Medicina. "A idéia - informava -, bem aceita em geral, achava-se já em via de concretização, quando fomos forçados a adiá-la, quase pronto se achava o respectivo regulamento e de algum modo previsto o pessoal docente, se bem que a lei não nos permitisse nomeá-lo se não por concurso".

Quando passou a funcionar plenamente, a Policlínica assumiu ares de escola. Estavam nos planos da construção de sua sede própria, localizada na rua do Carmo, a cessão de um andar para futura Academia de Medicina.

Em 1895, São Paulo viu surgir sua primeira associação de médicos, a Sociedade de Medicina e Cirurgia de São Paulo, presidida por Pereira Barreto. Entre os fundadores estava Cesário Motta Júnior. A Sociedade logo criou uma Policlínica, estabelecida na praça da Sé, que oferecia atendimento médico gratuito.

A essa época Arnaldo Vieira de Carvalho já se envolvia com a concretização da Faculdade, mas acreditava que tal empreitada só daria resultados se subvencionada pelo Estado.


Dr. Arnaldo Vieira
de Carvalho

Segundo Ricardo Maranhão, Arnaldo mantinha boas relações com Oscar Rodrigues Alves, filho e secretário particular do Presidente do Estado, Francisco de Paula Rodrigues Alves. Oscar teria contribuído para que Arnaldo fosse encarregado de executar a lei de 1891. Somente 21 anos depois da assinatura da lei Arnaldo recebia a incumbência de organizar a Faculdade de Medicina. Foi também por iniciativa oficial que a academia criada pela lei nº 19 foi estabelecida. Outorgada pelo Presidente Francisco de Paula Rodrigues Alves e pelo Secretário do Interior Altino Arantes, a lei nº 1357, de 19 de dezembro de 1912, implantou a Faculdade de Medicina e Cirurgia de São Paulo. O regulamento da Escola foi estabelecido através do decreto nº 2.344, de 31 de janeiro de 1913.

Na época em que tornou-se o responsável pela implantação do primeiro curso de Medicina do Estado de São Paulo, Arnaldo Vieira de Carvalho ocupava o importante cargo de Diretor Clínico da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, função que exercia desde 1894.

Contrário à vinculação da nova Faculdade à Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, Arnaldo buscou um local para seu funcionamento. A amizade com o Diretor da Escola Politécnica, Antonio Francisco de Paula Souza, assegurou a cessão de algumas salas para o novo curso. Outras salas foram cedidas pela Escola de Comércio Álvares Penteado, criada em 1892 e instalada no largo São Francisco.

A primeira aula da Faculdade foi proferida em 2 de abril de 1913, por Edmundo Xavier. Apenas em 1914 as aulas passaram a ser ministradas na sede provisória da Faculdade, localizada à rua Brigadeiro Tobias. Em 1918 formou-se a primeira turma, composta por 27 médicos, entre os quais duas mulheres.

Em 25 de janeiro de 1920, foi lançada a pedra fundamental da sede própria da Escola, localizada em frente ao cemitério do Araçá. Foi o último grande gesto público de Arnaldo, que morreu prematuramente meses mais tarde. Do projeto original, que previa a construção de cinco edifícios, apenas um foi construído, o que abriga o Instituto Oscar Freire.

O edifício que hoje alberga a Faculdade foi concebido por Ernesto de Souza Campos, Luiz de Rezende Puech e Benedicto Montenegro. Construído a partir de 1928, em grande parte com recursos da Fundação Rockefeller, o prédio foi inaugurado em 1931. As relações entre a Fundação Rockefeller e a Faculdade muito contribuíram para o aprimoramento do curso da graduação.

A Faculdade de Medicina passou a integrar a Universidade de São Paulo em 25 de janeiro de 1934, através do decreto 6.283. A partir dessa data a Escola recebeu a denominação que mantém até os dias de hoje.

As aulas práticas de clínica e cirurgia continuaram a ser ministradas na Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, até 1944, quando foi inaugurado o Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP.

A organização imprimida por Arnaldo à Faculdade de Medicina, sem confronto no âmbito nacional, foi fundamental para que ela se desenvolvesse em bases sólidas. Ressalta, nesse aspecto, a contratação de renomados professores estrangeiros como Lambert Meyer, da Faculdade de Nancy, França; Emílio Brumpt, catedrático da Faculdade de Medicina de Paris, França; Alfonso Bovero, anatomista, e Alessandro Donati, patologista, ambos oriundos da Universidade de Turim, na Itália.

A evolução da qualidade do ensino da Casa culminou com a classificação da Faculdade de Medicina da USP com o padrão "A" conferido pela Associação Médica Americana em 1951. O médico formado pela Faculdade tinha, no entender da Associação, o mesmo nível daquele formado nas melhores escolas do mundo.

Pesquisa, texto e edição: Marina Pires do Rio Caldeira


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